terça-feira, 22 de dezembro de 2015

no eterno retorno das andorinhas



no eterno retorno das andorinhas,
nas minhas dedicadas primaveras,
nas esferas que, rolando, pedem meças,
nas promessas que se trocam, abundantes,

no dantes que já não é e não perdura,
nas juras de para sempre, reiteradas,
na estrada que ainda falta percorrer,
no saber que antecipa setestrelos,

nos selos de vidas já seladas,
nas miradas que se enrolam num novelo,
no desvelo de alvoradas não sonhadas,
na parada de mistérios nos olhares,

nos colares de contas de algum inferno,
no eterno da promessa em segredo,
no degredo, na tortura, no exílio,
no auxílio de algo sem substância,

na distância, no sufoco da ausência,
na presença sempre ausente do divino,
no hino que te servem sempre à mesa,
na certeza sempre incerta do profano,

no dano provocado sem maldade,
na verdade escondida em nós mesmos,
no que vemos e naquilo que não vemos,
no que menos nos provoca algum pasmo,

nos espasmos de um corpo já defunto,
no assunto que ficou por resolver,
no viver incontáveis pulsações,
nas pulsões de desejar o proibido,

no bebido e, depois, no vomitado,
no ditado popular a que recorro,
no que morro se em mim tu não viveres,
nos dizeres que se dizem sem saber,

no dever de te saber mulher e fêmea,
no edema da ferida por fechar,
no andar decidido que ostentas,
nas atentas pedras da catedral,

neste mal que procede de algum lado,
no fado sem refrão e sem estrofe,
no que sofre a mãe dos filhos sem ter pão,
na mão que desenha universos,

nestes versos que procuram uma rima,
numa prima afastada que morreu,
no romeu que afinal sobreviveu,
em viseu nada é o que parece

e afinal tudo o que é desapareceu.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Apresentar Almas!"