segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

a menina que tinha janelas lá dentro e o menino que caiu para dentro dela


era uma vez uma menina que vivia num torreão de pedra.
vivia ali, aprisionada por um dragão que ela nunca tinha visto mas que sabia que existia.
há dragões assim, invisíveis.
assim como há gente que sabe que existem, mesmo sem os ter visto.
mas há pessoas que se aproveitam das outras pessoas que acreditam em dragões.
e essas pessoas - as que se aproveitam - resolvem construir torreões para que as pessoas que acreditam nos dragões tenham medo.
a menina era uma princesa pois só as princesas tinham caracóis como os dela.
e olhos como os dela, grandes, bem grandes.
uns olhos que comiam o mundo de tanto olhar para lá dele.
ah! é importante dizer que esta menina veio fugida duma guerra, dum país longínquo, do seu país.
e que nesse seu país ela falava e brincava com os suricatas e com as flores e com algumas pedras.
e até com os rios.
e foi na torre do dragão que ficou a viver alguns anos.
alguns dos melhores anos do seu crescimento enquanto menina.
"refugiada", chamavam-lhe as outras pessoas, as que acreditavam nos dragões e sobretudo as que se aproveitavam das que acreditavam nos dragões.
e a menina, aquela secreta princesa, olhava e olhava e olhava o mundo com aqueles seus olhos enormes.
quem lhe via aqueles olhos grandes nunca sabia se ela era curiosa ou se só queria aprender mais, olhando.
mas nunca perceberam que a menina não olhava assim por curiosidade.
queria aprender, isso sim.
mas, sobretudo, queria ver para lá do visível.
e ela via.
via muitas coisas.
porque - e isso agora é um segredo que vos quero contar - a menina tinha o bolso da sua saia cheio de janelinhas.
e punha essas janelinhas nos seus belos olhos.
eram janelas pequeninas que não se podiam ver a olho nu e que só ela encontrava no bolso da saia, com a ponta dos seus finos e belos dedos de princesa.
e sempre que a menina usava uma janela para espreitar para lá do mundo, engolia-a a seguir pois era uma forma de guardar dentro dela tudo o que via.
um dia, a menina debruçou-se a uma dessas janelas.
foi nesse momento que ia um menino a passar na rua.
e o menino conseguiu vê-la à janela:
lá estavam os olhos dela, bem abertos, e os caracóis que certificavam que ela era uma princesa dum reino distante.
e o menino foi passando todos os dias, sem falhar um único dia, cada vez mais perto do torreão.
a menina à janela fascinava-o.
até que um dia, o menino se encheu de coragem e resolveu subir ao torreão por uma trepadeira que ali tinha crescido na parede de pedra fria.
e chegou à janela onde estava a menina a espreitar.
e, ao se agarrar ao caixilho da janela, escorregou e caiu para dentro da menina.
e então, ele viu tudo o que a menina lhe quis mostrar.
viu todas as coisas que a menina já tinha visto pois a menina disse-lhe que ele poderia espreitar por todas as janelinhas que ela tinha lá dentro dela.
e ele sentiu-se bem.
aliás: ele sentiu-se muito bem.
sentiu-se bem como nunca pois jamais lhe fora dado ver tantas coisas belas até aí.
mas eram coisas tão belas e tão delicadas que o menino teve medo de partir alguma vidraça das pequenas janelinhas que moravam dentro da menina.
e ele sentia-se quentinho e aconchegado, ali.
ainda hoje o menino lá está, preguiçoso que é em sair de tão agradável local.
e o menino espreguiça-se volta e meia.
mas não consegue sair de lá.
não consegue porque não tentou.
nem quer,
e o menino também aprendeu a fazer uma janela.
uma única janelinha, daquelas pequeninas.
e colou essa janelinha no coração dele.
para que a menina lá se debruce.
e que entre.
e que faça do coração dele a casa dela.
pois sempre é mais quentinho lá dentro do que no torreão do dragão.
vitória, vitória, que não se acabe esta história...

(c) Carlos Clara Gomes
in "Apresentar Almas"

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

no eterno retorno das andorinhas



no eterno retorno das andorinhas,
nas minhas dedicadas primaveras,
nas esferas que, rolando, pedem meças,
nas promessas que se trocam, abundantes,

no dantes que já não é e não perdura,
nas juras de para sempre, reiteradas,
na estrada que ainda falta percorrer,
no saber que antecipa setestrelos,

nos selos de vidas já seladas,
nas miradas que se enrolam num novelo,
no desvelo de alvoradas não sonhadas,
na parada de mistérios nos olhares,

nos colares de contas de algum inferno,
no eterno da promessa em segredo,
no degredo, na tortura, no exílio,
no auxílio de algo sem substância,

na distância, no sufoco da ausência,
na presença sempre ausente do divino,
no hino que te servem sempre à mesa,
na certeza sempre incerta do profano,

no dano provocado sem maldade,
na verdade escondida em nós mesmos,
no que vemos e naquilo que não vemos,
no que menos nos provoca algum pasmo,

nos espasmos de um corpo já defunto,
no assunto que ficou por resolver,
no viver incontáveis pulsações,
nas pulsões de desejar o proibido,

no bebido e, depois, no vomitado,
no ditado popular a que recorro,
no que morro se em mim tu não viveres,
nos dizeres que se dizem sem saber,

no dever de te saber mulher e fêmea,
no edema da ferida por fechar,
no andar decidido que ostentas,
nas atentas pedras da catedral,

neste mal que procede de algum lado,
no fado sem refrão e sem estrofe,
no que sofre a mãe dos filhos sem ter pão,
na mão que desenha universos,

nestes versos que procuram uma rima,
numa prima afastada que morreu,
no romeu que afinal sobreviveu,
em viseu nada é o que parece

e afinal tudo o que é desapareceu.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Apresentar Almas!"